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03/05/2008 Quando a vocação está no sangue
Filhos que optam por seguir a carreira dos pais por conta própria relatam como descobriram o gosto pela profissão
Na semana passada, o Vestibular mostrou que a pressão dos pais e parentes próximos pode direcionar a escolha da carreira pelo vestibulando, transformando-o, no futuro, em um profissional frustrado. Há casos, porém, em que os próprios estudantes demonstram interesse em seguir o caminho aberto por familiares. “Minha mãe dava aulas de Química, Física e Matemática para turmas do ensino médio e sempre a tive como um exemplo. Tenho paixão pela área de Exatas”, conta a vestibulanda Maria Isabel Borba Dranka, 18 anos, que disputa uma vaga no curso de Química da UTFPR. A mãe da estudante, Maria Solange, faleceu há oito anos, mas as recordações que deixou serão eternas para a filha. “Quando eu era criança, costumava ir com ela ao trabalho, assistir às aulas que dava, e acabei me interessando pela carreira”, afirma Maria Isabel, que equilibra o tempo entre as aulas do cursinho e o trabalho como professora particular de alunos de 1º e 2º anos do ensino médio.
Priscila Oliveira, 18 anos, se encarregará da sucessão hereditária-profissional do pai, formado há cinco anos em Sistemas de Informação. Ela diz que o interesse pela computação surgiu aos 11 anos de idade, quando começou a fazer cursos na área. Para confirmar a vocação, a estudante chegou a freqüentar algumas aulas da graduação junto com o pai. “Pedi autorização ao coordenador do curso e participei de três aulas como aluna-ouvinte. Meu pai nunca tentou me influenciar, eu é que fui atrás dele para entender melhor a profissão”, garante. Guilherme Antunes do Nascimento, 18 anos, também afirma que optou por trabalhar na mesma área em que o pai, Ari, por vontade própria. O estudante está no segundo ano do curso de Engenharia Elétrica da UTFPR e no futuro pensa em trabalhar na empresa da família. “Meu pai fez Ciências Contábeis, mas há 20 anos tem uma empresa de projetos e execução de obras de engenharia elétrica. Ele atua no setor administrativo, enquanto eu, depois de formado, irei para a área técnica”, afirma.
Cuidados
Contar com a experiência e os contatos de um parente estabelecido no mercado pode ser uma vantagem, mas a melhor motivação para qualquer profissional é gostar do que faz, adverte a professora do departamento de Psicologia da UFPR Luciana Albanese Valore, doutora em Psicologia Escolar. “Conheço alunos que entraram no curso de Agronomia porque a família tem fazenda ou que fazem Direito porque terão garantida a clientela dos pais. Esses jovens buscam segurança, estabilidade financeira. Mas a profissão não é uma roupa que eles vão vestir e tirar no fim do dia. Para obter sucesso, é preciso dedicar-se muito à carreira, o que só é possível se a pessoa gostar realmente do que faz”, diz.
Ainda segundo Luciana, é natural que o filho se interesse pelo ofício dos pais quando eles são bem-sucedidos profissionalmente. No entanto, o candidato deve tomar cuidado para não confundir admiração com vocação: a escolha precisa estar apoiada em fatores como a aptidão para a área de interesse. “Antes de optar por uma carreira, é necessário buscar informações sobre o dia-a-dia da profissão, quanto ganha o profissional da área e em que campos pode atuar. O segundo passo é o estudante conhecer a si próprio, descobrir o que gosta de fazere em que conteúdos tem mais facilidade”, recomenda.
Vale a pena?
Dar continuidade à tradição familiar tem suas comodidades, mas também pode trazer problemas
Vantagens Ter alguém próximo para tirar dúvidas. Durante a faculdade, o estudante pode contar com o parente que já é graduado no curso. “Poderei pedir ajuda ao meu pai, assim como faz hoje o meu namorado. Ele está no curso de Sistemas para Internet da UTFPR e sempre vem em casa quando não entende bem um conteúdo”, afirma Priscila Oliveira, que fará vestibular para Sistemas de Informação, mesmo curso concluído por seu pai há cinco anos.
A colocação profissional é mais fácil. A experiência e os contatos de um familiar estabelecido no mercado facilitam os primeiros empregos. Além do apoio que recebe, o estudante que decide seguir a mesma profissão de um parente próximo costuma encontrar uma estrutura já montada e, dependendo da área, uma clientela pronta quando parte para a prática.
Desvantagens Interferência dos parentes. A intromissão dos pais nas decisões do dia-a-dia profissional do filho faz com que ele se torne dependente e não desenvolva a maturidade necessária para enfrentar os problemas que surgirão.
Comparações e pressão. O estudante terá de lidar com comparações, especialmente se o familiar for bem-sucedido e reconhecido pelo talento profissional. “As comparações são quase inevitáveis, mas o jovem deve tomar consciência de que cada um tem um jeito próprio de praticar a profissão. O filho é parte de uma nova geração e tem uma outra visão da carreira”, explica Luciana Valore, da UFPR.
FONTE: www.gazetadopovo.com.br
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